domingo, 1 de maio de 2011

Mãe

(..)
Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou a menina
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
          Era uma vez uma princesa
          no meio de um laranjal...


Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas. 


(Eugénio de Andrade)
Quadro:  Klimt - mãe e filho

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