quinta-feira, 26 de maio de 2011

Retrato de Mulher


Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.

E olha para o lado, imóvel.


Está vendo os salões que se acabaram,

embala-se em valsas que não dançou,

levemente sorri para um homem.

O homem que não existiu.


Se alguém lhe disser que sonha,

levantará com desdém o arco das sobrancelhas,

Pois jamais se viveu com tanta plenitude.


Mas para falar de sua vida

tem de abaixar as quase infantis pestanas,

e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.


Cecília Meireles, in 'Poemas (1942-1959)'



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