segunda-feira, 25 de julho de 2011

Os atentos são os únicos que não ignoram quanto a distracção dos sentidos lhes limpa a própria atenção. Quanto mais perdidos nos parecem os sentidos, mais livres regressam à nossa visualidade, ao entendimento justo das coisas.




De vez em quando abria-se mais uma garrafa de champanhe na mesa do Antunes e o estrondo parecia um desafio à sala inteira. Quanto mais crescia a animação nesta mesa mais o resto parecia tumular e esmagado. Mas não era tal um desafio, era o verdadeiro prazer próprio da noite: passar o tempo que está a mais na vida, distrair com ilusão autêntica o que não é feliz ou tarda.
lugares próprios para a distracção, para pôr de lado raciocínios, onde há músicas que não pensam e falam de tudo, depressa, num segundo, o bastante para recordar ao de leve e até ao fundo as doces e as tristes lembranças, e passar logo para não pensar, e ter os olhos cheios de luzes, e os ouvidos cheios de sons, e entretidos todos os sentidos, e a alegria estupenda, artificial, autêntica, suspensa, no ar, uma coisa leve, sem peso, sem significado, sem feitio, imaterial mas a encher admiravelmente aquele momento!
Os atentos são os únicos que não ignoram quanto a distracção dos sentidos lhes limpa a própria atenção. Quanto mais perdidos nos parecem os sentidos, mais livres regressam à nossa visualidade, ao entendimento justo das coisas. Esta é a significação das diversões, de toda a distracção. Porém, nos locais abertos toda a noite, os personagens estão ali ferozmente presentes na nossa frente para não podermos duvidar. Depois da meia o juízo foi-se deitar e tudo serve de bebida  para desequilibrar os sentidos habituados a ver tudo em pé! E isto às vezes é o bastante para se reparar que afinal o que estava de pé era a ilusão, e a realidade de rastos.
- Champanhe! Mais champanhe!

Almada Negreiros, Nome de Guerra

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