domingo, 10 de julho de 2011

Presença


É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exacto e que, apenas levemente, o vento
das horas ponha um frémito em teus cabelos...
...É preciso que a tua ausência lance
subtilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu te sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!
(Mário Quintana)

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